sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Sabores de um ano velho

Existem fatos que ocupam largos espaços na nossa mente, mas que nem sempre efetivamente temos a oportunidade de prová-los. E eu digo provar no sentido do sabor mesmo, qual a papila gustativa que vai reconhecê-lo. Para mim, isto é o mais importante. É doce, como chocolate ao leite, fechar os olhos, beijar sentindo o gosto do aroma e o cheiro da saliva. É levemente picante, como rodelas de pimenta dedo-de-moça, olhar bem nos olhos, através do emaranhado de cabelos. Mas é de um amargo salgado, um sabor que não conhecemos, ou nunca conseguimos lembrar, a dúvida, o “se”, o “e agora”. É azedo o começo com final marcado. Porque afinal, é de se imaginar não haver a diversão do presente se não pudéssemos fechar os olhos e imaginar todo o resto. Porém, não se muda o que não começou; não se ‘adentra’ naquilo que está começado – entre outros – e que você não faz parte. Isto, tem gosto de queimado, de comida que não deu certo. Agora é uma questão de saber o sabor e procurar o fato: quero fatos com gosto de dedo lambuzado de negrinho.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Saudade de quê?

Surpreendo-me sempre que sinto saudades. Em verdade, com o sentimento em si. Porque afinal sentimos saudade de tantas coisas. Em verdade, queríamos tê-las agora que não mais existem? O momento que passou, com a pessoa que nele estava, deveriam se repetir? Serem eternos? Não, definitivamente. Creio eu que é uma questão de sensação. Numa tarde qualquer no parque sentei num banco, e rindo lembrei que ali, no mesmo banco, conheci uma menina que seria uma grande amiga. E a gente sente quando está ganhando uma grande amiga. Lembrei de quase toda a conversa, das gargalhadas e dos talvez precipitados segredos divididos. E aquela sensação me fez sorrir, me fez sentir saudade. Da amiga? Não; em verdade nem é mais amiga. A saudade é da sensação de uma qualquer coisa, digna de se sentir saudade. No momento, ando com saudade de sentir saudade.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças

Ter uma mãe é maravilhoso. Eu, particularmente, tive a honra de ter duas. Durante a minha infância, apesar de sempre ter minha mãe por perto, era com minha avó que eu morava. Dela eu recebi o carinho e os mimos de avó, mas também os valores e princípios de dignidade e bom caráter, que cuido para sempre regerem a minha vida. Mas o tempo passa, e tem coisas que não temos a capacidade de lutar, por mais que queiramos. Quando a saúde vai embora, não tem dinheiro no mundo, não tem amor, não tem nada que a traga de volta. No caso, o Alzheimer foi o diagnóstico. Os anos passam, a doença toma conta; perdem-se as lembranças, a lucidez, a dignidade. Agora, novo diagnóstico de câncer e suas metástases. E daí você descobre que uma coisa não foi embora: a dor. A pessoa perde tudo, e a dor fica ali, acompanhante final. A dela, e a nossa. Você deseja que venha a paz, que ela descanse. Mas quando a ida se torna real, ela dói. 'Egoisticamente' ela dói. O adeus é muito longo. O nunca mais é muito tempo.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

um assim meio sei lá

Depois daquelas cinzas de verde marguerita nem se pode querer mais nada. Muito menos exigir. Sentia ela um nada inexplicável. Talvez um mero desarrojado passar pela vida momentaneamente. Nem sequer sabia se esta palavra existia, mas que outra senão esta. Dividia assim as coisas pelas quais andava sentindo. Das mais loucas às enebriadas. E estava assim, a inventar palavras, porque se delas não se pode utilizar então de que servem afinal.
O céu ia se empoeirando de um olhar sujo. Não gostava do que via, mas e que adiantava, se nada ia servir o gostar ou não da paisagem do olho que refletia. Nada servia. Caminha que é pra ver se a cabeça vem junto correndo, estabanada.
O cansaço que vê nas esquinas de toda a cidade com sua grande sujeira e poeira poluída. O ar que pesa.
E ainda assim, como diz Lispector, de mim, só se sabe que respiro.

domingo, 16 de maio de 2010

vive esperando alguém que caiba nos seus sonhos...

Afinal, qual a dificuldade, eu gostaria de saber. Quem vive esperando alguém que caiba nos seus sonhos? Mas afinal o que seria se não isso? As perguntas vão tomando conta das afirmações. Ou melhor, as certezas dando espaço para as dúvidas. Será que alguma vez foram certezas absolutas? Esta tênue linha limitante, do certo pro duvidoso, na verdade, sempre se fez presente. É algo mais que ação e sentimento, que supera o nível da dubiedade, atravessando, chegando ao que está em volta. Ou não. Ao menos, deveria. Porque não se quer, porque se quer conter, manter na dubiedade, no controle interno. Avisem que os meio-termos existem para manter o equilíbrio, não para fugir dele. Não para se esconder até que se ache alguém que caiba nos sonhos. Não para fugir de ter encontrado alguém que cabe nos seus sonhos. E se não houver sonho, não pode simplesmente caber na sua realidade? Pois que venha a grandeza e a coragem, para aqueles que não sabem amar. Ou para os que não querem. Ou ainda, para os que não aceitam.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Solidão. Que nada.

E não é do ser só, ou estar só, que vem a solidão. Mas isso todo mundo sabe. Se sentir só às vezes é muito bom, é perceber que ainda que tenhamos e queiramos companhia, precisamos sempre nos relembrar que somos seres completos e por isso, plenamente capazes de encontrar em cada pedacinho de nós motivos pra sermos felizes. Ainda assim, às vezes o estado de solidão bate à porta. E vem aquele vazio, a gente olha para os lados; senta; deita; levanta; e nada. Inquietude. Computador; livro; controle remoto; e nada. Inquietude. Em um mês e uma semana no novo lar, pela primeira vez a solidão e a inquietude vieram me visitar. Ah...Alguém pra limpar a casa, pra fazer as compras, pra pagar as contas, pra fazer barulho neste diferente silêncio. Alguém pra me mandar parar de abrir a geladeira, ir dormir porque está tarde. Saudade? Talvez. Se é bom? Que nada. A necessidade de se sentir saudade é para os que não valorizam o que tem, e precisam sempre da mediocridade do não ter, para daí então se dar conta. É pensar pequeno. Não, nada de solidão, saudade, inquietude. Levanto, faço um chá quente, e organizo a agenda mental: trabalho, amigo, amigas, família, aula, academia. Pronto. Solidão? Que nada!

segunda-feira, 16 de março de 2009

"o tempo passou na janela, e só Carolina não viu"?

Sim, sigo saltitante, tal qual uma coelinha. E porque não estaria? É, talvez porque a tal roda da vida ficou levando destino pra lá, pra cá, e no fim fez uma bagunça. Essa história de antes tarde do que nunca é bobagem, se ficou tarde, azar, perdeu a aula, a consulta, o que for. Sabe aquelas pessoas chatas que chegam no médico atrasadas e daí ficam pedindo pra serem atendidas e acabam atrasando o horário de todo o resto? Pois é, são essas atrasadas aí, que chegam quando querem, e acham que todos têm que se adaptar ao relógio delas. Que nada. Demorou? Perdeu. Vai pra casa, pega o telefone e marca outro dia. Papo de maluco esse meu. Tudo pra dizer que tudo tem sua hora. E que se ela passou, e você não viu, um grande sinto muito. Acorda pra vida, porque ela é maravilhosa, ta passando na janela, e só você não ta vendo. E pior, ainda quer fechar janela alheia. A minha fica aberta até em dias de chuva. Mas, pra garantir, fico na rua logo de uma vez.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Saltitantes.

A vida, esta danada, insiste em correr. Mas ela que não se engane, cá estou eu, sempre, agarrando-a pela barra da saia. O ano virou, a formatura passou, dei uma corrida, com alguns tropeços, e pronto. Alcancei-a. Agora andamos juntas, de mãos dadas. Seguimos caminhando por aí. Não, caminhando não. Saltitando. Recolhendo as pedras, para fazer a tal escada, regando as flores, pra que venham as tais borboletas, e essas coisas todas.
Esses dias alguém me chamou de alfinete. Engraçado, será que leu a mesma história infantil que eu? Eu apenas sorri. Mal sabem que eu consegui virar o botão. Que às vezes me perco por aí. Mas eu sou um botão muito especial, porque sempre acho o caminho de casa. Só pra poder me perder de novo...
Em tempo, meu recheio é de sorvete de cevada. Por ora.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

;a vida em colorido

Final de ano fica tudo mais complicado, principalmente ter tempo para escrever. Mais complicado ainda é quando além da correria normal, tanta coisa ta mudando na vida da gente. Como todo bom artista, parece que a tristeza inspira a arte. E ela ta em falta na minha vida. Não que isso seja uma reclamação, pelo contrário. Ta dando tudo tão certo, to me sentindo tão leve. Claro, que nem tudo é sempre perfeito, tenho tido algumas decepções, com algumas pessoas. Penso que se continuar assim não vou poder olhar pra nenhum dos lados no meu assento da colação de grau. Mas pra que olhar para os lados não é? Vou é olhar pra frente, que é o que enfim tenho feito, e é o que tem dado certo, é claro. Novo emprego, novas amizades, novas pessoas, nova vida. É o que vejo olhando pra frente. Estou feliz. E ponto. Não é por algo, não é por alguém. É pelo colorido da vida, que há tempos eu via em preto e branco. É pela luz nos olhos meus, que estão indo ao encontro da luz dos olhos teus. Olhos que ainda não sei a quem pertencem, mas já os sinto. Porque como diz Vinicius, a vida é pra valer e é uma só. E depois de tanto só ver a vida passar por mim, acho que estou quase pronta para passar junto com ela. Feliz Natal. Feliz Ano Novo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Queria era ser um botão...

Mais uma história caiu na minha mão, e não posso deixar de comentá-la. É um conto para crianças, sobre a linha e a agulha. Elas discutem sobre qual delas é a mais importante, até que a linha vai para a festa, no vestido da menina, e a agulha volta para a caixinha. Então vem o alfinete e diz que a agulha é uma tola, que abre caminho para que a linha vá gozar a vida. O autor termina dizendo "também eu tenho servido de agulha pra muita linha oridinária". Se as crianças entendem, eu não sei, mas nós "gente grande" sabemos que um dia já servimos de agulha, e provavelmente de linha também. Acho que nessa história toda eu preferia mesmo era ser a costureira, ou um botão, que as vezes se perde por aí...
Quanto ao meu recheio, eu diria que esta semana que passou foi bem recheada. Foi um semestre, no mínimo, em sete dias. O que me levou a pensar que recheio demais transborda. E agora o novo passo é saber (ou voltar a saber...) o que fazer com o excesso. Mas também, se tranbordar, não mata, só lambuza... Porque meu recheio é doce, óbvio.